A consolidação e o aumento do interesse dos brasileiros pelos veículos elétricos e híbridos não são apenas visíveis no dia a dia, mas também estão se tornando palpáveis em números e dados. Pesquisas feitas por grandes empresas do setor já indicam um aumento considerável no volume de buscas por carros que utilizam, de alguma forma, energia elétrica na sua propulsão.

Mas esse momento pode ir na direção contrária do que vem acontecendo no mercado internacional, especialmente quando olhamos para os países mais desenvolvidos. O que se enxerga nas análises do ano de 2025 e nos primeiros meses do ano de 2026 é uma queda nas vendas dos carros eletrificados. Nos países onde essa queda não aparece tão acentuada, pelo menos surge uma redução no volume de crescimento, o que também acende o sinal amarelo nas montadoras.

Carros elétricos no Brasil / Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Carros elétricos no Brasil / Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Além disso, os governos dos países estrangeiros desenvolvidos, que são as sedes das grandes montadoras de carros eletrificados, estão mudando suas políticas sobre o tema. A pauta do meio ambiente parece ter perdido força, as metas de poluição estão mais lenientes, os objetivos de retirar os carros a combustão das estradas parecem estar cada vez mais distantes, e a falta de investimento em infraestrutura ainda é evidente.

O resultado imediato é um recuo em algumas das principais políticas de incentivos para os consumidores que adquiriam carros eletrificados. Com isso, os descontos deixam de ser aplicados e os modelos passam a ser vendidos pelos seus preços reais, o que nem sempre parece ser uma vantagem quando comparado aos modelos tradicionais.

Para tentar projetar o momento dos carros elétricos no Brasil e entender o que pode acontecer nos próximos meses, é importante analisar o contexto até o momento, tanto do mercado nacional quanto do que está acontecendo nos países que ditam as regras do segmento.

As vendas de eletrificados no Brasil

Se o segmento de veículos eletrificados basear seu futuro na fotografia tirada no Brasil ao longo do ano de 2025, as projeções seriam completamente favoráveis. Os mais variados dados do setor indicam que o país vive uma consolidação da presença dos carros do futuro.

As vendas de carros eletrificados (incluindo elétricos puros, plug-in e híbridos) somaram mais de 220 mil unidades em 2025, número recorde na história do país e bem acima dos resultados registrados uma década atrás. E a oferta de modelos elétricos e híbridos se expandiu consideravelmente, com novas montadoras entrando no mercado e com as montadoras já existentes trazendo novos carros importados e projetos para produção nacional.

O foco, nesse momento, não está tanto na oferta de novas tecnologias ou soluções que consigam deixar os carros eletrificados mais baratos para o consumidor brasileiro, mas sim em um aumento nos diferentes tipos de modelos. Isso garante que os veículos atendam diferentes tipos de demanda, dos mais variados segmentos.

O ano de 2025 teve lançamentos que vão de compactos urbanos a SUVs familiares, tanto para híbridos quanto para elétricos puros.

Híbridos como porta de entrada

Uma tendência que foi confirmada nos últimos anos no Brasil e que indica um futuro para o mercado brasileiro é a preferência pelos híbridos. Existem diversos motivos para que os consumidores brasileiros ainda não apostem nos EVs e prefiram ter em mãos um veículo que consiga aproveitar tanto a energia limpa quanto a tradicional combustão.

Analistas apontam que a falta de infraestrutura ainda é decisiva para influenciar a venda dos veículos puramente elétricos. Os motoristas simplesmente não confiam que terão, sempre disponíveis, os postos de recarga para preencher a bateria e seguir uma viagem mais longa. Além disso, o tempo dessa recarga ainda é demorado quando comparado à praticidade da boa e velha gasolina.

Gráfico com dados da venda de veículos eletrificados no Brasil em 2025 / Gerado por IA
Gráfico com dados da venda de veículos eletrificados no Brasil em 2025 / Gerado por IA

Além disso, a questão do envolvimento e do entendimento da nova tecnologia e de como isso afeta o veículo de uma forma geral também é levada em consideração no momento da compra. E, com os modelos elétricos já completando alguns anos de rodagem nas estradas brasileiras, a manutenção e como o carro se comporta depois de um determinado tempo se tornam questões fundamentais.

O ano de 2025 encerrou com um recorde de 223.912 unidades vendidas (incluindo elétricos e híbridos), um aumento de 26% em relação a 2024. Desse total:

  • PHEV (Híbridos Plug-in): 101.364 unidades (45,3% do mercado total de eletrificados).
  • HEV Flex (Híbridos Plenos Flex): 21.323 unidades (9,5%).
  • HEV (Híbridos Plenos): 21.047 unidades (9,4%).

Com esse comportamento, as montadoras estão mudando algumas estratégias. A BYD, por exemplo, já demonstra interesse em focar sua estratégia nas opções híbridas, como o BYD Song Pro, que vai passar a ser produzido nacionalmente.

O impacto do inverno elétrico

Mas o mercado automotivo brasileiro, que sente as mudanças bruscas de fora, acaba se tornando ainda mais sensível quando estamos falando dos eletrificados. A quantidade de carros produzidos aqui ainda é muito pequena, e a pressão nos preços dos veículos vendidos pelas montadoras em outros países também acaba sendo sentida nas concessionárias locais.

Diferentes consultorias, como S&P Global e BloombergNEF, indicam que o cenário para os elétricos em 2025 foi de estagnação e queda moderada no contexto global. As vendas de veículos elétricos em toda a indústria automotiva caíram 3% em janeiro, em comparação com o mesmo período do ano passado, de acordo com dados da Benchmark Intelligence. Na América do Norte e na China, as vendas caíram 33% e 20%, respectivamente, no mês passado.

Queda nos incentivos ficais para carros eletrificados no mundo / Gerado por IA
Queda nos incentivos ficais para carros eletrificados no mundo / Gerado por IA

Um dos principais motivos é a redução dos incentivos. Nos Estados Unidos, por exemplo, foram sendo eliminados os créditos fiscais federais (de até US$ 7.500) para diversos modelos. O governo foca agora nas tarifas de importação em vez de subsídios diretos ao consumidor.

Na China, o maior mercado do mundo encerrou seu plano econômico de subsídios diretos generosos, migrando para um sistema de créditos de carbono entre as montadoras e incentivos focados apenas em tecnologias de nova geração ou áreas rurais.

Na Europa, a situação também não é muito diferente. Na Alemanha, o governo encerrou o seu programa de bônus ambiental para a compra de elétricos. Já a França reduziu o orçamento total destinado aos subsídios em 2025, passando de €1,5 bilhão para €1 bilhão. Além disso, o bônus ecológico agora é restrito com base na renda do comprador e na “pegada de carbono” da produção do veículo, o que exclui muitos modelos importados, especialmente os chineses.

Tudo isso impacta os custos que as grandes montadoras de veículos eletrificados possuem em relação ao seu negócio, e o impacto atingirá, na opinião de diversos especialistas, o mercado brasileiro ao longo de 2026.

Momento de transição no Brasil

A pressão internacional e as características do mercado brasileiro, especialmente do comportamento dos motoristas ao avaliar e buscar dados sobre os carros eletrificados, devem consolidar ou acelerar algumas estratégias que já vinham sendo anunciadas pelas montadoras.

Um dos principais pontos é considerar o ano de 2026 como um marco para a transição de um modelo de negócio nesse segmento. O que antes era apenas importador, dependendo dos acordos e das taxas aplicadas para trazer veículos prontos das plantas internacionais, passa agora a ser também um hub de produção nacional, visando atender não apenas às demandas do nosso país, mas também às da região.

Fábrica da BYD no Brasil / Créditos: Divulgação BYD
Fábrica da BYD no Brasil / Créditos: Divulgação BYD

Mas essa mudança terá que levar em consideração as alterações em relação à tributação. O cronograma de retomada gradual do imposto chega ao seu ápice em 2026, impactando diretamente o preço final dos veículos que não são fabricados no Brasil.

A partir de julho de 2026, todos os veículos 100% elétricos (BEV) e híbridos plug-in (PHEV) importados pagarão a alíquota máxima de 35%. Além disso, o governo encerrou as cotas de isenção para kits desmontados (CKD/SKD) no início de 2026, forçando as montadoras a acelerar a nacionalização de componentes.

A consolidação da produção nacional

 

Por outro lado, a boa notícia para a indústria e para o segmento de uma forma geral é a consolidação dos planos das grandes montadoras internacionais de modelos eletrificados para produção nacional. A produção nacional do BYD Dolphin Mini (Seagull) e do Song Pro na fábrica de Camaçari, por exemplo, visa contornar o imposto de 35% e manter preços competitivos.

Além disso, a GWM está focando na sua planta de Iracemápolis a produção de SUVs híbridos e elétricos, com planos de exportação para a América Latina. E a chegada da Leapmotor ao Brasil, sob o guarda-chuva da Stellantis, introduz modelos como o SUV C10 para competir diretamente com as líderes chinesas.

Essas são apenas algumas das novidades do mercado de veículos eletrificados, que promete ser agitado no Brasil em 2026.