A chegada das montadoras chinesas ao Brasil trouxe um debate que não para de crescer: esses carros desvalorizam mais rápido do que os tradicionais? A pergunta é legítima. Afinal, comprar um veículo ainda é um dos maiores investimentos da vida do brasileiro, e perder dinheiro na revenda pode transformar uma boa compra em um arrependimento de longo prazo.

A resposta, como mostra a tabela Fipe de fevereiro de 2026, não é simples — e depende muito de qual modelo e qual marca estamos falando.

O estigma da desvalorização: mito ou realidade?

Durante anos, a desconfiança em relação às marcas asiáticas no mercado de usados foi quase um consenso informal entre compradores e revendedores. Mas os dados mais recentes da tabela Fipe mostram um cenário mais nuançado: enquanto alguns modelos chineses sofreram depreciação expressiva, outros se comportam de forma surpreendentemente estável — ou até superam o valor tabelado nos anúncios.

O grande divisor de águas não é a origem do carro, mas a estratégia comercial da montadora. Marcas que praticam descontos frequentes e agressivos — como bônus de R$ 30 mil a R$ 50 mil em modelos específicos — acabam corroendo o preço de referência de todos os exemplares já vendidos, criando um efeito dominó que atinge diretamente os proprietários.

BYD: o peso das promoções no valor de revenda

A BYD chegou ao Brasil com força total. Com fábrica em Camaçari (BA) e uma linha que vai do popular Dolphin Mini ao luxuoso Han EV, a marca rapidamente se tornou sinônimo de elétricos acessíveis. Mas a política de precificação variável cobrou seu preço na tabela Fipe.

O caso mais emblemático é o do BYD Dolphin EV: quem comprou o modelo no início de 2025 por R$ 156.840 viu o valor médio na Fipe cair para R$ 121.730 em apenas 12 meses — uma desvalorização de 22,4%, ou seja, mais de R$ 35 mil evaporados. Isso aconteceu, em parte, porque a própria BYD reduziu o preço de tabela do modelo em campanha subsequente, "contaminando" os preços dos usados.

BYD Dolphin / Créditos: Divulgação BYD
BYD Dolphin / Créditos: Divulgação BYD

Por outro lado, modelos voltados para o segmento premium — como o BYD King e o Han EV — se comportaram de forma diferente, sendo negociados ligeiramente acima da tabela. A percepção de exclusividade e a menor oferta de usados no mercado ajudam a sustentar esses valores.

GWM: estabilidade como diferencial

A Great Wall Motors (GWM) trilhou um caminho diferente. Com fábrica inaugurada em Iracemápolis (SP) em 2024 e investimento previsto de R$ 10 bilhões até 2032, a marca adotou uma política de preço único em todo o Brasil — sem descontos diretos no valor do veículo.

O resultado aparece claramente na tabela Fipe: o GWM ORA 03 Skin desvalorizou apenas 4,8% em um ano, contra 22,4% do BYD Dolphin EV no mesmo período — uma diferença de quase cinco vezes. Já o Haval H6 nas versões híbrida e plug-in híbrida se manteve praticamente na linha da tabela, com variações inferiores a 1,5%.

Ora 03 Skin / Créditos: Divulgação GWM
Ora 03 Skin / Créditos: Divulgação GWM

Quando a GWM oferece incentivos comerciais — como financiamento com taxa zero —, esses benefícios não impactam diretamente o preço de referência da Fipe, protegendo o patrimônio de quem já tem um Haval ou ORA na garagem.

O que isso significa para quem vai comprar?

Antes de fechar um contrato com qualquer montadora chinesa — ou qualquer outra —, vale checar o histórico de preços na tabela Fipe e comparar com os anúncios reais em plataformas como o Carzin. Se o preço anunciado estiver muito abaixo da Fipe, pode ser um sinal de que o mercado já precificou uma desvalorização que a tabela ainda não capturou.

Outro ponto de atenção é a política de precificação da marca: montadoras que praticam descontos diretos no valor do veículo tendem a prejudicar os proprietários existentes. Enquanto isso, marcas com preço único e menor volatilidade comercial oferecem mais previsibilidade na revenda.

Por fim, o segmento importa: modelos populares e de grande volume costumam ter oferta abundante de usados no mercado, o que pressiona os preços para baixo mais rapidamente. Já modelos premium ou de nicho tendem a manter valor por mais tempo, simplesmente porque há menos disponibilidade.

Ilustração Carros Chineses e Tabela de Preços / Créditos: I.A.
Ilustração Carros Chineses e Tabela de Preços / Créditos: I.A.

Conclusão: a origem importa menos do que a estratégia da marca

Os dados da tabela fipe de 2026 encerram de vez o debate simplista de "chinês desvaloriza mais". A realidade é mais complexa: o que define a desvalorização não é o país de origem do automóvel, mas as decisões comerciais da montadora, a posição do modelo no mercado e o volume de usados disponíveis.

Para o consumidor brasileiro, a lição é clara: pesquise o histórico de preços na Fipe antes de comprar, acompanhe a política comercial da marca e fique atento a promoções que parecem vantajosas no ato da compra, mas podem representar prejuízo na hora da revenda.

Desvalorização Fipe – Principais modelos chineses (jan/2025 – fev/2026)

Modelo Preço jan/2025 Fipe fev/2026 Variação Risco de revenda
BYD Dolphin EV R$ 156.840 R$ 121.730 −22,4% Alto risco
BYD Dolphin Mini R$ 110.180 R$ 106.594 −3,3% Baixo risco
BYD King (sedan) R$ 148.000 R$ 150.125 +1,4% Estável
BYD Han EV R$ 298.000 R$ 303.213 +1,7% Estável
GWM Haval H6 HEV R$ 178.000 R$ 175.937 −1,2% Baixo risco
GWM Haval H6 PHEV R$ 215.000 R$ 212.973 −0,9% Baixo risco
GWM ORA 03 Skin R$ 144.979 R$ 138.027 −4,8% Baixo risco

Fontes: Tabela Fipe Carzin (fev/2026). Variação calculada sobre preço zero km no início do período.